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Ilusões por Casimiro de Abreu


Quando o astro do dia desmaia Só brilhando com pálido lume, E que a onda que brinca na praia No murmúrio soletra um queixume; Quando a brisa da tarde respira O perfume das rosas do prado, E que a fonte do vale suspira Como o nauta da pátria afastado; Quando o bronze da torre da aldeia Seus gemidos aos ecos envia, E que o peito que em mágoas anseia Bebe louco essa grave harmonia; Quando a terra, da vida cansada, Adormece num leito de flores Qual donzela formosa embalada Pelos cantos dos seus trovadores; Eu de pé sobre as rochas erguidas Sinto o pranto que manso desliza E repito essas queixas sentidas Que murmuram as ondas co’a brisa. É então que a minha alma dormente Duma vaga tristeza se inunda, E que um rosto formoso, inocente, Me desperta saudade profunda. Julgo ver sobre o mar sossegado Um navio nas sombras fugindo, E na popa esse rosto adorado Entre prantos p’ra mim se sorrindo! Compreendo esse amargo sorriso, Sobre as ondas correr eu quisera… E de pé sobre a rocha, indeciso, Eu lhe brado: – não fujas, – espera! Mas o vento já leva ligeiro Esse sonho querido dum dia, Essa virgem de rosto fagueiro, Esse rosto de tanta poesia!… E depois… quando a lua ilumina O horizonte com luz prateada, Julgo ver essa fronte divina Sobre as vagas cismando, inclinada! E depois… vejo uns olhos ardentes Em delírio nos meus se fitando, E uma voz em acentos plangentes Vem de longe um – adeus – soluçando! …………………… Ilusão!… que a minha alma, coitada, De ilusões hoje em dia é que vive; É chorando uma gloria passada, É carpindo uns amores que eu tive! Lisboa – 1856.

Casimiro de Abreu

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